28 de mar de 2010

Revista "O Cruzeiro" Edição de 30 de Maio de 1959 -- CRUZADA CONTRA A IMPUNIDADE (por David Nasser)




Fonte do texto e das imagens: http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro/30051959/300559_2.htm

postado por George Felipe de Lima Dantas
em 28 de março de 2010

O Cruzeiro - 30 de maio de 1959

CRUZADA CONTRA A IMPUNIDADE
Por DAVID NASSER

Comece a luta dentro de sua casa. Chame as suas filhas, os seus filhos, tôda a família, para uma conversa, e diga-lhes que não esperem muito senão de si mesmos. Que a impunidade é a resposta que nesta terra se dá a tantos crimes contra a vida, contra a honra, contra o patrimônio. Mata-se no Rio de Janeiro, em um mês, duas vêzes mais que em Londres, em um ano. A vida de um ser humano, na Capital brasileira, é a única mercadoria deflacionária: vale apenas um pedaço de chumbo. Os bandidos cortam a barriga de um pobre chefe de família que volta para casa, roubam-lhe os embrulhos, e, sorrindo, deixam o infeliz estirado numa poça de sangue. Casais são assaltados e levam tiros no rosto. A violência, o latrocínio, a morte fria campeiam impunemente pela cidade - e não se vê uma atitude decisiva, um grito de advertência, como se estivésemos acostumados a isto, como se tudo fôsse natural. A impunidade forja os maus exemplos. Novos bandidos surgem. Novas quadrilhas de marginais se formam - e a impunidade continua. O Chefe de Polícia pode fazer justiça, fazer limpeza, livrar a cidade de assassinos irrecuperáveis - mas, apenas os assassinos que vieram dos morros, que vieram da sarjeta, que vieram do SAM desaparecem. Os abastados ficam.

Os mocinhos, filhos de pais ricos, que se divertem com a honra das meninas inexperientes, que se valem do dinheiro dos pais, do dinheiro que lhes dará a impunidade quando se tornar necessário. (E quase nunca se torna necessário, a não ser quando as coisas se agravam, como no caso Aída Cúri.)

Dedicamos esta reportagem, primeiro às mocinhas, mesmo às mais sensatas, lembrando que a virtude precisa ser protegida. Depois, aos pais de família, para que conheçam os perigos que suas filhas (e os seus filhos) correm todos os dias, tôdas as noites nesta cidade. Ao Presidente da República, que, afinal, também tem filhas, e sabe o que isto representa. Finalmente, aos juízes íntegros, para que não deixem impunes tais crimes, a fim de que, exausto, cada pai de família atingido não venha a fazer justiça com as suas próprias mãos.

Isto não é uma obra de ficção: é o próprio Sindicato da Curra

Embora pareça incrível, o autor desta reportagem a escreveu baseado em acontecimentos de cunho real, colhidos no próprio seio da juventude deliqüente de nossos dias. Conversou, durante alguns meses, com elementos do próprio Sindicato da Curra, como êles, orgulhosamente, se denominam. Alguns, aposentados. Outros, na ativa. O curioso é que tôdos êles, quando lhes perguntávamos: “- E se isto acontecesse à sua irmã?” - fechavam o rosto, endureciam os olhos e diziam que matariam o desgraçado que ousasse. Para a documentação fotográfica, valemo-nos de um jovem, não transviado como êles, porém que os conhecia de perto. A êsse profissional, cujo nome, por motivos óbvios, para não dividir os riscos, omitimos, a êsse fotógrafo, os transviados pediram que documentasse os lances de uma verdadeira “curra”. A idéia surgiu dos próprios membros do Sindicato da Curra, “a fim de se tornarem famosos”. E advertiram: “Mas não cenas de araque, como dessas reportagens com uns tipos que não são de nada”. Portanto, não é uma reconstituição. Seus personagens são reais e tudo o que estas fotos representam é, absolutamente, dolorosamente, vergonhosamente, real.

Os transviados se jactavam das cenas mais deprimentes, e que ainda não foram reproduzidas pela imprensa. Um dos seus argumentos: muitas mocinhas os procuram, nos chamados “pontos”, para as chamadas “curras”. Como foram iniciadas? Inúmeros processos são empregados, além dos convites simples, do namôro livre, da liberdade excessiva. Um dos sistemas é a compra de revistas condenáveis e clandestinas e a exibição das mesmas à môça que se pretende currear. Vem, a princípio, a revolta. A curiosidade acaba vencendo. A primeira viagem de lambreta. Os amigos surgem. Há uma simulação de briga. O próprio namorado apanha. Mas, finalmente, todos a possuem. Voltando para casa, a môça esconde, de vergonha, tudo que lhe aconteceu. Depois, acaba voltando.

Os transviados se reúnem quase que diàriamente, à noite, no sopé dêste morro. Rapazes desajustados, jovens deliqüentes, todos de boas famílias, e meninas pervertidas. Fàcilmente se poderá saber onde fica o local das “curras”. (O fotógrafo, utilizado por suas ligações com os transviados, seguiu na garupa de uma lambreta.) Sabe-se que o mesmo está localizado num “morro da caixa-d`água velha”. O covil possui uma cama tôsca, um velho colchão e algumas velas para iluminá-lo, uma pequena prateleira com garrafas de guaraná, uma porta sem cadeado. Do lado de fora, no platô, após se banquetearem com a menina, o cigarro de maconha é a sobremesa. Se a menina resiste, pode até ser morta. Para se converter ontem na estudante Aída. Como poderá ser, amanhã, a vossa filha.

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva

Um comentário:

Blogandosegurança disse...

- Vale citar, 50 anos depois, o que David Nasser já referia em maio de 1959: "Mata-se no Rio de Janeiro, em um mês, duas vêzes mais que em Londres, em um ano. A vida de um ser humano, na capital brasileira, é a única mercadoria deflacionária: vale apenas um pedaço de chumbo". O Rio de Janeiro ainda era Distrito Federal, já que a transferência da capital para Brasília só iria ocorrer no ano seguinte.
- Também é digno de nota que o "Crime contra Aida Curi", basicamente um estupro seguido de morte (homicídio ou suicídio...) tenha grande comoção na sociedade carioca. A comoção envolvia o fato do crime ter como autores jovens "de boa família", com a questão da impunidade ficando registrada em "cores fortes" nesse artigo de David Nasser no "O Cruzeiro".
- As crianças eram tiradas da sala quando o caso era tratado na televisão, em um tempo em que os delitos sexuais eram uma espécie de tabú...
- Fica o registro histórico para os interessados na história da "criminologia do Brasil", 50 anos depois, em tempos do "Caso Nardoni".