27 de fev de 2010

Hipocrisia e Hipercrisia: Colocando as Coisas de Volta ao Lugar com Pizzas e Panetones








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Por George Felipe de Lima Dantas -- em 27 de fevereiro de 2010



A expressão hipercrisia está citada em “Power Increases Hypocrisy: Moralizing in Reasoning, Immunity and Behavior” – “O Poder Aumenta a Hipocrisia: Moralidade baseada na Razão, Imunidade e Comportamento”. Trata-se de um trabalho de pesquisa acadêmica sobre o tema da relação entre o poder e a hipocrisia, de autoria de Adam Galinsky (da Kellogg School of Management, Northwestern University, EUA) & Joris Lammers e Diederik Stapel (da Tilburg University, Holanda). O estudo parece bastante inspirado no “mundo real”, representando uma pesquisa acadêmica que busca confirmar ou não a sabedoria do “homem comum”, instrumentada com a validade e confiabilidade próprias da abordagem científica.



A pesquisa realizada incluiu grupos de indivíduos submetidos a situações experimentais que induziam auto-percepções de ter ou não ter poder. Cinco experimentos foram feitos com a finalidade de determinar se o poder aumenta a hipocrisia moral, circunstância em que são impostos altos padrões éticos “nos outros”, mas cuja prática, tanto da parte de poderosos quanto daqueles sem poder, revela comportamento hipócrita.



No primeiro experimento, considerando os “sem poder”, os poderosos condenaram a mentira dos primeiros, mas não tanto a deles mesmos. Nos três experimentos seguintes os poderosos foram mais rigorosos no julgamento das transgressões morais “dos outros”, do que na prática correspondente deles próprios.



Um experimento final determinou que o efeito do poder sobre a hipocrisia dependeria da legitimidade da fonte do poder na percepção de quem o exerce. No caso do poder ser considerado ilegítimo, a hipocrisia não só desapareceria como também seria revertida. Os detentores do poder ilegítimo seriam mais rigorosos com eles mesmos do que com os outros, em uma reversão da hipocrisia chamada hipercrisia. O fenômeno estaria presente não apenas entre os poderosos, mas também entre os sem poder, quando entendida como ilegítima a fonte de poder. Uma consideração mais ampla do estudo é a de que, tanto a hipocrisia quanto a hipercrisia se constituem em fatores de perpetuação da desigualdade.



O trabalho desses acadêmicos norte-americanos e holandeses vai comentado no periódico britânico “The Economist” (semanário com tiragem de 1,4 milhões de cópias), na edição de janeiro de 2010, sob o título “Absolutely: Power corrupts, but it corrupts only those Who think they deserve it” – Definitivamente: o Poder corrompe, mas corrompe apenas aqueles que acham merecer o poder. O título da matéria de janeiro de 2010 do “The Economist” parece evocar o de outra pesquisa anterior correlata, dos mesmos autores, comentada na revista “Time”, edição de maio de 2008, “Does Power Corrupt? Absolutely Not” – Será que o Poder Corrompe? – Definitivamente, Não. Ou seja, existe uma “linhagem” de estudos, dos mesmos autores, sobre poder, hipocrisia e corrupção.



Um artigo contendo a comunicação acadêmica clássica, in totum, da mesma interessante pesquisa sobre poder e hipocrisia deverá ser publicado em edição do início de 2010 no periódico especializado Psychological Science. Ele é um mensário líder na área respectiva, bem como em questões derivadas das ciências comportamentais com rebatimento nos setores de governo e de questões públicas em geral.



Tratar do tema "poder e hipocrisia", à moda brasileira, seria como se Galinsky, Lammers e Diederik questionassem a validade dos fundamentos de velhões bordões do anedotário popular, tais como “Não julgue para não ser julgado” (bíblico), “o pau que dá em Chico não é o mesmo que dá em Francisco” (regional) e vários outros mais similares. É a metodologia científica sendo aplicada sobre a sabedoria popular, tendo esta última como hipótese a ser testada.



O Houaiss ensina que a hipocrisia é um adjetivo que traduz “a característica do que é hipócrita”. Já o substantivo conota falsidade, dissimulação ou fingimento. Ele consta até mesmo do Evangelho de Mateus (23:28), referido por Jesus de Nazaré, “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniqüidade”.



Recorrendo novamente ao tratadista Housaiss, a etimologia do termo remontaria ao grego -- hupokrisía, as; hupókrisis, eós --, resposta, resposta de oráculo; ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; dissimulação, falsa aparência. Todos esses possíveis significados e conotações parecem referir atributos e situações tão ou mais atuais e prevalentes hoje, do que em tempos de Cristo, ou mesmo antes, ainda na milenar Grécia antiga.



A sociedade brasileira tem sido confrontada, muito recentemente, em seus “valores morais”, por notícias de apurações de vários escândalos envolvendo os “poderosos” da nação. Os escândalos usualmente incluem o desvio de verbas públicas, incluindo negociatas políticas feitas com elas, em um exercício disfuncional ou desviante da prática da “ciência e arte da política”. A articulação desses escândalos, quando revelada, envolve caracteristicamente a hipocrisia (nos diferentes sentidos definido pelo Houaiss...) e os detentores do poder. A hipocrisia é algo ainda mais controverso eticamente, em se tratando de titulares de cargos públicos eletivos ou de indicação por altas autoridades de governo. A hipocrisia, sintomaticamente -- em relação ao exercício do poder -- parece ser a tônica atual de escândalos envolvendo os mais altos escalões de poder do país.



O estudo acadêmico europeu e norte-americano sugere que existam operadores políticos que se acham de tal maneira protegidos (imunes), que se permitem um exercício amoral do poder (comportamento) e, segundo esta mesma lógica (razão), um discurso e uma prática ética diferenciada entre a deles e a dos outros (hipocrisia). É o “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Segundo tal razão ou raciocínio, comportamentos baseados em um conceito de poder legítimo seriam levados ao extremo do absurdo, mas em sua própria razão – baseada na imunidade absoluta – ensejado flagrante desproposito ou insensatez. - Como explicar? - E há como explicar? – Foi isso que a pesquisa de Galinsky, Lammers e Stapel buscou responder.



O estudo de Galinsky e colaboradores, no seu resumo e comentário do “The Economist”, começa por explicar comportamentos e práticas retóricas habituais de alguns políticos profissionais, baseadas na hipocrisia, caso, por exemplo, da infidelidade conjugal do próprio, pari passu com uma retórica pública (“da boca pra fora”...) de promoção dos valores da família, caso da fidelidade no matrimônio. Igualmente considerando, seria a necessária dissimulação da corrupção pessoal (na apropriação do que é público ao patrimônio privado, incluindo dinheiro), versus um discurso veemente e inflamado de austeridade e moralidade na gestão de bens coletivos – dinheiro aí incluído. O comentário do artigo também aponta que o fenômeno passou a ser tão comum na atualidade que já não surpreende mais ninguém.



Ainda que seja norte-americana e européia a substância referida na revista e da mesma origem os autores do artigo, o tema é igualmente pertinente a uma situação contemporânea no Brasil. O Distrito Federal, por exemplo, vive uma grave crise político-institucional em função da questão do uso despropositado do poder. Passou a ser motivo de chacota e piada, em raciocínio óbvio do cidadão comum no Brasil, a premissa de que exista uma correlação necessária entre o exercício do poder e a hipocrisia (falsidade, dissimulação ou fingimento). Com isso, o exercício do poder estaria passando a ser sinônimo de uma prática política que inclui mentir e falsear valores. – Será mesmo?



Mensagens eletrônicas circulam diariamente pela Internet, com charges, piadas e “tiras”, dando conta da “hipocrisia política” no Brasil. As falas de “Odorico Paraguaçu”, cínicas e hipócritas, ao limite do humor pelo absurdo, são transpostas para a rede mundial de computadores em humor cáustico de “flashbacks” da novela “O Bem Amado” de Dias Gomes -- televisada no início da década de 1970. Quase 40 anos depois, portanto, passagens de uma novela/sátira que trata de uma prática já antiga, a seu tempo, estão sendo ressuscitadas, parecendo atualíssimas... Assim, no Brasil de 2010 os temas da hipocrisia e do cinismo são objeto de chacotas, em anedotas aplicadas sobre coisas tão abjetas e absurdas como um mensalão, mensalinho e, mais ultimamente, um demensalão. E essa tendência do humorismo político segue em manifestação recorrente e retumbante entre os brasileiros. Mas não só entre eles...



Se os brasileiros ressuscitaram um anedotário político com base em Dias Gomes, os pesquisadores norte-americanos e europeus também evocaram seus equivalentes locais. O artigo do “The Economist” refere um bordão secular, entre anglo-saxônicos, de que “O poder tende a corromper, mas o poder absoluto corrompe de maneira absoluta” (Lord Acton, 1887). No Brasil, a citação de Lord Acton, historiador inglês nascido na Itália (Nápoles, 1834-1902), merece alguma contextualização.



John Acton, católico, teve um papel crítico de relativa importância quando da promulgação da doutrina da infalibilidade papal em 1870. Ao bordão citado de Acton vale acrescentar algo mais, também da lavra dele: “Grandes homens quase sempre são homens maus, mesmo quando exercem influência e não autoridade: mais ainda quando adicionada a tendência ou certeza da corrupção, em função da autoridade ser total e absoluta. Não existe pior heresia do que supor que o cargo santifique aquele que o exerce”. O ditado sobre corrupção e poder absoluto teria sido precedido, também nas palavras de Acton, pelo seguinte intróito: “E lembrem, onde houver uma concentração de poder em poucas mãos, muito freqüentemente estarão em posições de controle homens com a mentalidade de membros de gangues. A história já provou isso”.



Importantes conclusões gerais são extraídas pelos autores do trabalho considerado. A primeira delas, paradoxal que pareça, é a de que os que não detém poder contribuem para a perpetuação da desigualdade -- são mais rigorosos consigo mesmos do que com os outros. Tal percepção e comportamento respectivo, dos sem poder, robusteceria a lógica dos poderosos, de que, mais do que terem tudo, julgariam “poder quase tudo”, inclusive pela certeza da impunidade enquanto atributo inerente ao poder. O reverso do fenômeno, da parte dos sem poder, seria perpetuarem o “não ter nada”, mormente por acreditarem não terem, legitimamente, o “poder de querer ter coisa alguma”. Os pesquisadores apontam que até mesmo na linguagem referente ao poder e seus detentores, e os outros, estão presentes referências, ainda que sutis, de quem é quem e de quem tem ou não tem poder. - “Manda quem pode, obedece quem tem cabeça”? - Existiriam várias “linguagens simbólicas”, inclusive do cotidiano, reforçando automaticamente os comportamentos em prol da manutenção do status quo em relação ao poder...



Como última conclusão geral do estudo, os pesquisadores tratam de como seria possível reverter a situação de desigualdade ou assimetria de poder, sem ser pela via clássica da revolta. Apontam que um dos caminhos seria revelar publica e jocosamente que o processo da distribuição de poder seria ilegítimo, caso do poder auferido com o auto-enriquecimento ilícito, fruto da corrupção. A via não violenta para isso incluiria a intriga, maledicência ou a vulgarmente chamada “fofoca”, produzindo um conseqüente comprometimento público da reputação do corrupto. Os potenciais corruptos e hipócritas, da sua parte, sentir-se-iam obrigados a expressar comportamentos de acordo com a norma socialmente aceita, sob pena de perderem rapidamente a autoridade, a reputação e, finalmente, o próprio poder. Ou seja, seria possível colocar as coisas de volta ao lugar devido, com as armas da ridicularização -- como com as referências a "pizzas e panetones" -- emblemáticas de corruptos e do uso ilegítimo do poder...

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