12 de jan de 2011

A Segurança de Grandes Eventos Desportivos: o "Hooliganismo"



Fonte das imagens: http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-447008/How-Ultras-ganged-United.html

por George Felipe de Lima Dantas

em 13 de janeiro de 2011



A segurança de grandes eventos públicos, os esportivos inclusive, tem variadas expressões antagônicas. O que existe hoje de mais contemporâneo e inclusivo nesse sentido, trata-se de um fenômeno genericamente denominado de hooliganism. Ele inclui em sua panóplia de objetos de expressão, não só a prática de esportes, mas também a dinâmica típica de certos comportamentos coletivos. Deles fazem parte a violência, a desordem e a própria criminalidade peculiar a tal tipo de circunstância -- o agrupamento de pessoas para uma finalidade específica.

O dicionário e guia de pesquisa The Language of Psychology, define o hooliganismo (na acepção em português) como sendo um tipo de comportamento humano desafiante e destrutivo. O termo tem sido freqüentemente vinculado pela mídia global com fanáticos ingleses de torcidas de clubes de futebol (soccer na acepção anglossaxônica) ou, alternativamente, com comportamentos de natureza análoga e expostos por torcedores ou fãs (expressão intuitivamente simpática, mas derivada da abreviatura de fanáticos, e que traz conotações não tão simpáticas...) de futebol ou de qualquer outro esporte. O tema, no contexto da violência psicossocial, recebe atenção regular da mídia, ainda que, segundo a literatura especializada, ocorra muito mais em função da gênese, processos, fatos e ocorrências não necessariamente relacionados com o futebol propriamente dito. Ele seria, essencialmente, mais uma expressão da violência contemporânea nela própria, manifesta no contexto do esporte, mas não necessariamente derivada do esporte propriamente dito.

Exatamente pela característica multifacetada do fenômeno da violência de grandes coletividades, outras fontes, diferenciadas das pertinentes à indústria midiática, apontam a ambigüidade com que a expressão ‘hooliganismo’ é utilizada e a necessidade de qualificá-la de maneira específica sempre que aparecer referida genericamente. Ainda que o termo esteja amplamente relacionado com a violência, desordem e até mesmo criminalidade produzidas no contexto das competições futebolísticas ou do esporte em geral, ele pode traduzir algo mais espontâneo e não apenas deliberado apenas em relação ao desporto.

Assim, o ‘hooliganismo’ pode expressar-se de maneira espontânea, geralmente de baixa intensidade, ao envolver conflitos entre torcedores (anônimos e que saem das próprias multidões) que estão nos estádios de futebol ou em volta deles, em jogos fora ou na própria sede geográfica das agremiações desportivas engajadas em tais certames desportivos.

Já na forma deliberada, envolve gangues (ou turmas de "valentões" criadores de caso), agregados aos torcedores de um determinado clube de futebol, mesclando-se e confundindo-se com eles. Da mesma forma fariam, e de fato fazem, em relação a qualquer outro time, com o fito principal e deliberado de produzir violência, desordem e cometer crimes, certas vezes bem antes dos jogos, dentro ou fora dos estádios, e até mesmo distante dos locais onde os certames serão realizados.

A expressão ‘hooliganismo’ é de origem anglo-saxônica, não havendo notícia, entretanto, de estar incluída em tipologia da terminologia penal de países dessa ou daquela cultura nacional. De acordo com referências as mais diversas, tudo leva a crer que o termo foi criado pela própria mídia dos países de língua inglesa, ou pelo menos assim identificado em sua pertinência com a violência dos estádios, mais especificamente na Inglaterra, parte do Reino Unido (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte). Tal fenômeno emerge claramente ao final da década de 1960, intensificando-se como tal nas décadas seguintes. Talvez, por isso mesmo, o ‘hooliganismo’ também seja referido como a ‘doença inglesa’.

Episódios de grandes desordens públicas, violência, lesões corporais e mortes, tanto no Heysel Stadium de Bruxelas, Bélgica quanto no de Hillsbourough de Sheffield, Inglaterra, são considerados emblemáticos da emergência mais cruenta do fenômeno do ‘hooliganismo’.

Na partida realizada no estádio Heysel (em 29 de maio de 1985) resultaram 39 mortes e centenas de feridos (predominantemente italianos), em um jogo final de futebol da Copa Européia de 1985 disputado entre o Liverpool (inglês) e o Juventus (italiano). Já no certame levado a cabo em Hillsborough (em 15 de abril de 1989), a contagem de mortos chegou a 96, em partida futebolística semifinal entre o Liverpool e o Nottingham Forest (ambos ingleses).

Mas o futebol não é apenas inglês ou brasileiro – hoje é quase que universal. A Copa do Mundo de 2010 foi tida e havida por muitos como o maior espetáculo da terra, com audiências presenciais e remotas contadas aos milhões de indivíduos. Esporte e futebol possuem hoje um significado bem maior do que pode sugerir o senso comum. Isso fica bem posto por Murad (2007, p.18) ao afirmar:

Há uma tendência na sociologia que afirma que o futebol (o esporte, em geral)
[...] é um ritual de “violência simbólica” e, por isso, tem um sentido
civilizacional (Elias, 1994a), pois evita e/ou esvazia a violência direta,
material. Uma espécie aproximada, talvez, de “solução ritual do conflito”. [...]
E seria esse frágil limite, entre o real e o simbólico, que ajudaria a explicar
o fenômeno do conflito, da agressão, da violência no futebol. Potencialmente
essa estaria sempre pronta a ultrapassar as fronteiras da ordem, da lei, das
regras e do controle social. [...] Sua manifestação ficaria a depender,
tão-somente, de algum estímulo externo: anomia, impunidade, descaso das
autoridades, conexão com outros níveis de agressividade direta (drogas, xenofobia, racismo) ou indireta (pobreza, desemprego, exclusão).

Se o futebol não é hoje apenas inglês (lá se deu sua origem apenas...) ou brasileiro (gentílico do país onde é praticado secularmente por boa parte da população), mas quase que universal – ele é distinto de outras formas de entretenimento coletivo (sob formas culturalmente isoladas da ‘comunidade global’: touradas, lutas de sumô, partidas de hockey no gelo, etc.). Ao mesmo tempo, o futebol é reconhecidamente uma forma de entretenimento mundial, constituindo-se também em uma 'atividade diferenciada de trabalho’ (ainda que trabalho ele pareça ser apenas para aqueles diretamente envolvidos na ‘indústria’ respectiva). E é nesse contexto que a violência parece um “corpo estranho”, ao permear um fenômeno essencialmente de entretenimento quase universal. Já aí, é interessante recorrer a uma obra didática e inclusiva de Baldy dos Reis (2006, p.xvi), no sentido de tentar melhor compreender e explicar a violência em seu significado antitético e antiestético em relação a uma expressão de entretenimento buscada por milhares de fãs presentes aos estádios e por milhões ou bilhões de telespectadores que assistem e acompanham os mesmos jogos de futebol assistidos remotamente em seus televisores:

A exclusão da violência, que decorre da essência (a esportividade) do jogo, por isso mesmo já consagrado na linguagem comum e corrente, que cunhou expressões como “por esporte”, “levar na esportiva”, “espírito esportivo”. Quem faz algo “por esporte” o faz por puro prazer, para se divertir, para passar o tempo, sem objetivo utilitário, sem preocupação de vencer, de se impor, de dominar. “Levar na esportiva” significa não cair em provocações, reagir com bom humor. Tem espírito esportivo quem sabe ganhar ou perder com classe, com elegância. [...]

À vista do exposto, como entender a irrupção da violência no futebol, tal como tem ocorrido com as ‘torcidas organizadas’, tanto no Brasil quanto no restante do mundo? - Evidentemente, já que esse fenômeno é inexplicável, será necessário buscar sua origem fora do âmbito propriamente esportivo. E uma vez que o esporte, como toda relação humana, é uma relação social e histórica que só existe em condições determinadas, é preciso buscar na forma da organização social em que vivemos as raízes da violência das torcidas de futebol.

Se as noções do que sejam a violência e o futebol são quase intuitivas, já não o é a do que seja uma ‘torcida organizada’ e seus fanáticos.

Torcer envolve um estado emocional, essencialmente individual e em que se deseja ansiosamente uma articulação técnico-tática futebolística de onze indivíduos, ao limite de que essa articulação (em uma "jogada"), considerada até mesmo esteticamente bela (na apreciação de alguns), por fim seja capaz materializar um tento (gol ou ponto), ou quase a sua materialização (já agora na apreciação estética de todos). O contrário é desejado em relação ao time opositor, por bela que seja a julgada. "Aplauso, enlevo e gozo na primeira situação, silêncio, alívio e pesar na segunda...

Mas torcer organizadamente (supostamente o objetivo explícito ao ser semanticamente expresso em ‘torcida organizada’) certamente inclui algo mais do que apenas o ato individual e solitário de torcer. Na busca do entendimento do que seja uma ‘torcida organizada’, há que deter primeiro o entendimento do que seja um fã ou torcedor. Tais expressões não são apenas de conceituação singular ou plural, mas também diferenciadas qualitativamente. Daí o recurso à literatura e como o termo possa ser definido diferenciadamente.

Vários são os autores e citações a esse respeito contidas no documento comercial Amberlight -- Fan Psychology: Designing Effective Fans Services Online, texto corporativo online sem data ou autoria pessoal citada.

A Psicologia Social tem estudado o comportamento dos fãs (e particularmente fãs de esportes) [...] Para o propósito deste documento, um fã é definido como um seguidor entusiástico de um esporte ou entretenimento. O esporte, time ou pessoa sendo apoiada será referido como alvo. [...] Um fã é mais do que apenas um mero expectador. Fãs possuem um vínculo psicológico com o "alvo" [...] Existe evidencia de que fãs altamente identificados com seus respectivos alvos sentem emoções intensas com relação à performance dos alvos por eles escolhidos. [...] como também uma gama de benefícios psicológicos de longa duração [...] Isso sugere que muitos fãs vêem o alvo como um importante aspecto das suas vidas e até mesmo um componente crítico da sua identidade social [...] Na prática, o nível de identificação é possível de ser um continuo que vai de zero até o fanatismo [...].

Mas se a definição de fã ou torcedor pode vir de várias vertentes, na de ‘torcida organizada’ em diferenciação mais qualitativa e menos quantitativa, a variedade de vertentes já não é tão pródiga, ortodoxa e permanente. Tome-se como exemplo a de Santos Diogenes (2003, p.104) .

A torcida organizada aparece entre os seus integrantes, pontuada por um imaginário ambíguo, condensador de referentes aparentemente contraditórios. Através da torcida é possível pensar que a cidade não obedece aos ritos e da ordenação para ela planejada. A conjunção entre Marte e Vênus, entre coisa boa e ruim, nos projeta diante de um cenário denso, onde os bonzinhos malvados enunciam que a cidade ordenada, zoneada está em guerra. [...] Com a agressão dos hooligans aparece uma mudança de escala, de natureza, de significação: a morte pode ser o cortejo da desordem, da destruição. É a exploração de uma situação, a presença de uma massa dividida pela paixão nas partidas de futebol, de um jogo cujo movimento e cuja linguagem (as metáforas) fazem um simulacro da guerra, de uma religião esportiva que é também a do corpo e que dá forma ao paganismo moderno, que impregna a sociedade atual (BALANDIER, 1997, p. 211).

Tudo isso poderá emergir, no Brasil, antes e durante a próxima Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014. É preciso conhecer bem o "Hooliganismo" para poder controlar tal fenômeno global...

Referências e Notas:

MURAD, Maurício. A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje. Rio de Janeiro: FGV, 2007.

Anomia (Anomie) – Substantivo: (1) Estado pessoal de isolamento e ansiedade resultante da perda do controle social e regulação; (2) Perda de padrões morais em uma sociedade. A anomia como “desordem pessoal”. O sociólogo pioneiro francês Emile Durkheim utilizou esta palavra para enfatizar as causas do suicídio. Fonte: Anomia. Disponível em: www.websters-online-dictionary.org/an/anomie.html>. Acesso em: 24 dez. 2008.

Exclusão Social (Social Exclusion) – Resultado de privações múltiplas que impedem indivíduos ou grupos de participar completamente na vida econômica, social e política da sociedade onde eles estão localizados. Disponível em: Acesso em: 24 dez. 2008.

REIS, H. H. B. Futebol e violência. 1. ed. Campinas: Armazém do Ipê/FAPESP, 2006.

Violência (Violence) – (1) Exerção de força física de maneira a lesionar ou abusar (como em situação de guerra efetuando uma entrada ilegal em uma residência); (2) uma instancia de tratamento ou procedimento violento; (3a) Ação de força intensa, turbulenta ou furiosa e freqüentemente destrutiva ; (3b) Sentimento ou expressão veemente: fervor. Também uma instancia de tal ação ou sentimento; (3c) uma confrontação de interesses que seja perturbadora: discordância; (4) alteração ou desfazimento (como de palavras ou sentido delas na edição de um texto). Disponível em: www.merriam-webster.com/dictionary/violence>. Acesso em: 24 dez. 2008.

Futebol (Soccer) – Jogo travado em um campo por dois times de 11 jogadores cada, com o objetivo de propelir uma bola redonda no gol do oponente, chutando ou atingindo-a com alguma parte do corpo, com exceção das mãos e dos braços. Disponível em: www.merriam-webster.com/dictionary/soccer>. Acesso em: 24 dez. 2008.

Fã (Fanatic) – Etimologicamente derivado do latim fanaticus, expressão que equivale àquele que está inspirado por uma divindade, sob estado de frenesi do templo de fanum. Em acepção moderna, alguém marcado por excessivo entusiasmo e freqüentemente intensa devoção desprovida de senso crítico. Disponível em: www.merriam-webster.com/dictionary/fanatic>. Acesso em: 24 dez. 2008.

www.amber-light.co.uk/resources/whitepapers/designing_fan_services.pdf -

DIÓGENES, Glória Maria dos Santos. Itinerários de corpos juvenis: o baile, o jogo e o tatame. São Paulo: Annablume, 2003.

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