21 de mar de 2010

Artes Marciais Mistas e Segurança Pública




Fontes das imagens: http://www.pmdf.df.gov.br/Default.asp?pag=noticia&txtCodigo=4549
http://www.pmdf.df.gov.br/Default.asp?pag=noticia&txtCodigo=3979

postado por George Felipe de Lima Dantas

em 21 de março de 2010

Artes Marciais Mistas e Segurança Pública

Os currículos policiais tradicionalmente incluem a disciplina de “Defesa Pessoal” (DP). Ela é parte do ramo do conteúdo curricular (juntamente com “Armamento e Tiro”) que tem por objetivo o desenvolvimento de conhecimentos, técnicas, habilidades e atitudes associados a um bloco específico de competências (tarefas ocupacionais) cujo objetivo último é a contenção não-letal ou menos-que-letal dos agentes do crime e da desordem. Por paradoxal que possa parecer, um conteúdo curricular aparentemente relacionado com o uso da força física, ou até mesmo com o estigma do emprego da violência, não poderia ser mais benigno e humano, se propriamente ministrado não só nos seus componentes psicomotores, como também cognitivos e afetivos.

A DP, entretanto, mais do que exclusivamente um conteúdo curricular policial, é tradicionalmente decantada, como bem mais que isso, porquanto um tema incluído na educação básica, parte da formação do caráter de crianças e adolescentes. A DP também é um tema de grande interesse de adultos de ambos os gêneros. Em não-adultos a DP pode fortalecer a auto-estima, ao dar ao indivíduo jovem, cujo caráter ainda está em formação, uma certeza necessária de que a agressão física, além de imprópria socialmente, certamente pode ser contida, independente da forma ameaçadora arquetípica que ela possa tomar (aí incluída a figura do chamado “bully”, um problema contemporâneo no ambiente escolar). Além, portanto, de poder desmistificar o medo físico de outrem, de maneira lógica, vista ao revés, a capacidade de autodefesa pessoal também desmistifica intenções belicosas naquele que detém a competência proporcionada pela DP.

Adultos de ambos os gêneros praticam hoje diferentes estilos e técnicas de DP, tanto em prol da autodefesa propriamente dita quanto do desenvolvimento e manutenção do físico, seja em termos cardiorrespiratórios, musculares e/ou de outras aspirações pessoais estéticas. Proliferam no país as “academias” em que artes marciais as mais diversas são praticadas: Aikido, Boxe, Boxe Chinês, Capoeira, Hapkido, Judô, Jiu-Jítsu, Karatê, Karatê Kenpo, Kung Fu, Luta Livre, Luta Olímpica, Muai Thay, Sambo, Savate, Sumô, Taekwondo, Wrestling, etc.

Uma das dificuldades da inclusão da DP nos currículos dos cursos de treinamento dos profissionais de segurança pública é a sua sistematização enquanto disciplina única e singular. O praticante mais eficaz da DP, tradicionalmente, é aquele que conjuga estilos e técnicas multidisciplinares em relação às várias artes marciais existentes. Na formulação dos currículos policiais, é recorrente a reflexão sobre quais os temas das artes marciais a serem incluídos nos conteúdos correspondentes, o que sempre implica em fazê-lo de maneira parcial ou total em relação a esta ou aquela arte marcial, sob o risco da superficialidade ou exclusividade, com o ônus decorrente da falta ou excesso.

A emergência de um novo estilo de arte marcial, a Arte Marcial Mista (AMM) ou “Mixed Martial Arts” (MMA) parece poder consolidar-se enquanto uma disciplina de DP única e singular. Como as outras artes marciais já citadas, a AMM é também uma modalidade de esporte de contato, mas que conjuga de maneira coerente uma vasta gama de técnicas diferenciadas com origem nas várias artes marciais pré-existentes. Ela associa golpes traumáticos desferidos pelos membros ou parte deles (mãos, cotovelos, joelhos, pernas e pés) com técnicas de imobilização e submissão (estrangulamentos, chaves de braço, perna e calcanhar), tanto com os contendores estando em pé quanto no solo. As regras da AMM são bastante estritas em relação às de outros esportes marciais. A diversidade de técnicas passíveis de serem utilizadas implica na necessidade de maior segurança para os atletas contendores.

O termo em inglês, MMA, foi cunhado faz pouco mais de uma década (1995). Quatro anos depois (1999) foi criada a primeira organização oficial de normatização desse novo desporto, a International Sport Combat Federation (SCF). Já em novembro de 2005 o Exército dos Estados Unidos da América realizou o seu primeiro evento de MMA, o “Army Combatives Championships”, levado a efeito na “US Army Combatives School”.
O MMA vem crescendo em popularidade e já chega a competir, enquanto esporte de entretenimento de multidões, com audiências tradicionalmente voltadas para outras modalidades de arte marcial. Curiosamente, o Brasil tem forte associação com a criação desse novo esporte entre as artes marciais, por sua tradição no antigo “vale tudo” associado com a escola de Jiu-Jítsu da família Gracie.

Na atualidade, vários brasileiros detém ou já detiveram títulos de campeões mundiais de MMA em diferentes categorias de peso. Entre os atuais campeões estão Lyoto Machida do Amazonas e Anderson Silva do Paraná. Proliferam pelo país as equipes intermodais de treinamento de MMA e já passou a ser um diferencial de qualidade e atração popular de competições no exterior a presença de brasileiros. Paulo Thiago, policial militar do Batalhão de Operações Especiais (BOpE) da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) é outro dos grandes nomes atuais do MMA. Thiago derrotou Mike Swick em fevereiro de 2010 em evento internacional -- UFC - 109 -- realizado em Las Vegas, Nevada e está entre os desafiantes de Georges St-Pierre, atual campeão da sua categoria de peso (até 77Kg).

Parece existir uma convergência de interesses da segurança pública e do MMA. Na área de prevenção primária da delinqüência o Senador Magno Malta vem prestigiando e estimulando esse novo esporte como um inibidor do consumo de drogas e promotor da saúde física e mental dos jovens brasileiros. No mundo desportivo de alta performance os vários competidores e campeões brasileiros de nível correspondente encontram uma fonte de ganhos que amplia consideravelmente as possibilidades de trabalho para um grupo etário especialmente exposto à vitimização pelo crime. Os profissionais de ensino diversas modalidades de artes marciais estão tendo suas atividades ampliadas e intensificadas com o afluxo de alunos jovens e residentes em áreas de risco. As instituições de segurança pública do país, da sua parte, podem agora adotar uma modalidade de DP que, melhor que multidisciplinar, tornou-se interdisciplinar, com o MMA consolidando as melhores práticas em doutrina facilmente aplicável após intensa testagem em prol da performance de atletas da sociedade em geral.

E fica o mote, com origem no MMA, de pacificação do crime e da desordem, fruto de conflitos físicos interpessoais, tão comuns entre jovens brasileiros nos dias correntes:

NÃO BRIGUE – LUTE!

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