7 de fev de 2010

A Cerimônia Fúnebre de Cleiton Batista Neiva

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A Cerimônia Fúnebre de Cleiton Batista Neiva


por George Felipe de Lima Dantas

em 07 de fevereiro de 2010


O que faz um mártir é a causa e não meramente a morte... (Napoleão Bonaporte)

A cerimônia fúnebre do Primeiro Tenente Cleiton Batista Neiva (parte do "staff" da Minustah/ONU/Haiti, quando em trabalho voluntário de licença regulamentar temporária da PMDF), falecido nas instalações sinistradas da ONU (Sede da Minustah em Porto Príncipe) por ocasião do terremoto da capital haitiana, Haiti em 12 de janeiro de 2010, foi realizada em 07 de fevereiro de 2010 nas instalações da Academia de Polícia Militar de Brasília (APMB) da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Tal cerimônia incluiu uma missa de corpo presente, cânticos e pronunciamentos acerca da vida do jovem policial militar falecido e divulgação da sua mais que merecida promoção post-mortem ao posto de Capitão, enquanto mártir da sua família, da PMDF, da comunidade do Distrito Federal, da Nação Brasileira e da grande comunidade universal que contribui e segue contribuindo para com o esforço internacional em prol da estabilização do Haiti.

A PMDF fez realizar uma cerimônia digna, sóbria e singela, com recursos institucionais e dos membros da turma de “irmãos de armas” do jovem oficial policial militar falecido. Mas faltou algo...

O algo que parece ter faltado foi uma esperada e justa equidade, em dimensão política e cerimonial, de âmbito nacional e distrital, à chegada, homenagens e declarações de justos e merecidos benefícios aos familiares dos demais mártires brasileiros no Haiti, cujos restos mortais antecederam, em sua chegada, os do agora Capitão Cleiton Batista Neiva.

A nação vive um tempo turbulento em relação à segurança pública. Talvez por isso mesmo as instituições do setor estejam permanentemente em cheque em sua relação enquanto prestadoras de serviços para suas respectivas comunidades, no que tange questões de lei e ordem. Pratica-se hoje no Brasil uma retórica político-ideológica que aponta a "polícia comunitária" em sua tradição, filosofia, gestão e práticas como "o caminho a seguir". E não poderia ser diferente disso na vigência do "Estado Democrático de Direito” e tomando como paradigma o chamado Primeiro Mundo (países ocidentais de democracia consolidada e seus sistemas de “justiça criminal” que enfatizam o modelo de "polícia comunitária").

A tônica da filosofia de gestão comunitária da segurança pública (ou "polícia comunitária") talvez seja a retomada de um "velho vinho em um frasco novo", cujo exemplo emblemático é uma paradigmática "polícia cidadã" representada pela Polícia Metropolitana de Londres, alcunhada historicamente de "Scotland Yard" em uma alusão ao seu local sede de origem. Ela foi uma polícia nascida sob o signo de que a comunidade é a polícia e a polícia, formalmente instituída, apenas uma parte da comunidade exercendo atividades policiais de maneira formal e continuada: comunidade/polícia ou polícia/comunidade em "tempo integral". Parece ser isso o que se depreende dos princípios enumerados por Robert Peel, Primeiro-Ministro da Inglaterra ao instituir em 1829 a hoje “Polícia Metropolitana de Londres” ou Met como é carinhosamente alcunhada nos dias atuais.

Não é possível dissociar tudo isso do funeral do oficial policial militar do Distrito Federal, brasileiro tombado heroicamente no Haiti...

O que faltou à cerimônia fúnebre do agora Capitão Cleiton Batista Neiva foi o “autêntico espírito" da retórica da "polícia comunitária" de Robert Peel e que hoje se pretende estabelecer no país: a comunidade em identidade e harmonia com sua polícia -- ela própria em uniforme...

Cleiton não poderia ser mais emblemático do que é pertencer a uma família brasileira, a uma comunidade (Ceilândia, Distrito Federal) de perfil socioeconômico similar ao de boa parte do restante do povo (classe média), de haver ingressado em uma instituição pública cujo acesso é realizado de maneira aberta e não-discriminatória, dele fazer parte dos nascidos e criados na capital "de todos os brasileiros" e pertencer a um país de dimensões continentais e que hoje está formente engajado em ascender a uma posição de liderança na comunidade internacional. Nesse caso, Cleiton se houve brilhantemente, tanto como cidadão brasileiro quanto policial militar distrital!!!



O agora Capitão Cleiton Batista Neiva descansa em paz, em solo pátrio, como herói e mártir, depois que a sua família e a sua PMDF fizeram realizar uma cerimônia digna, sóbria e singela, com recursos institucionais e dos membros da turma de “irmãos de armas” do jovem oficial falecido. Mas, com tudo isso, faltou algo...

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