12 de dez de 2007

Segurança...mais que pública

A Floresta e o Homem da Floresta...

por George Felipe de Lima Dantas

A existência de boa parte da região amazônica em território brasileiro certamente centraliza e intensifica a questão ecológica em nosso país. Padecemos historicamente da falta de políticas públicas claramente estabelecidas para essa região, local que hoje é o foco da atenção do resto do mundo sobre o Brasil. Uma das conseqüências de tal situação é a nossa permanente vulnerabilidade política, diante de movimentos internacionais de preservação ecológica, "watchdogs" (cães de guarda) sempre prontos a denunciar supostas crises da política conjuntural brasileira com impacto na hiléia, tanto em relação à exploração dos seus recursos naturais, quanto vis-à-vis problemas decorrentes do contato entre ´civilizados´ e grupos étnicos nativos.

Temos respondido positivamente, de alguma forma, aos anseios nacionais e internacionais em relação à preservação da amazônia brasileira, mas importantes questões, ainda invisíveis aos olhos da nação, continuam tragicamente negligenciadas. Se os princípios norteadores das políticas públicas nacionais para a Amazônia devem lidar com a dificuldade do trato de problemas complexos e dinâmicos (e até mesmo pouco conhecidos...) em relação à exploração dos formidáveis recursos naturais da região, não se pode dizer o mesmo em relação aos grupos étnicos lá existentes. Preservar os ´povos da floresta,´ ou promover sua aculturação, representa conceitualmente uma dicotomia bastante conhecida dos brasileiros, com sobejos precedentes históricos. Vale relembrar o enorme desastre ocorrido em tempos coloniais, época que marca o início do desaparecimento de vários grupos nativos após seus primeiros contatos com os colonizadores europeus.

Atualmente sabe-se da vulnerabilidade imunológica dos povos nativos em geral, realidade de conseqüências trágicas ao longo da história, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Uma vez expostas a doenças infecto-contagiosas trazidas ao seu meio ambiente por não-nativos, essas populações estão fadadas ao desaparecimento.

É sabido hoje que o conhecimento de boa parte das riquezas amazônicas está profundamente assimilado na cultura de seus povos nativos, remetendo a questão de sua exploração racional e econômica ao respeito e conservação do patrimônio ´étno-botânico´ dos povos da floresta. Tal conceito associa as riquezas locais ao conhecimento acumulado pelas culturas ancestrais da região, fazendo com que flora, fauna e cultura estejam intimamente ligados nessa relação sinérgica de conhecimento, respeito, uso e conservação. Mas se a preservação física e tangível dos ´povos da floresta´ é uma questão de caráter natural, imunológico e médico, sua preservação ´enquanto cultura´ possui um forte componente político, muito mais controlável e ameno à intervenção do Estado. Preservação cultural, em linguagem leiga, implica dar condições às populações indígenas de seguirem com seu próprio modo de vida, baseado em crenças e costumes milenares de seus ancestrais. Na base de tudo isso estaria a própria ´visão cósmica´ desses grupos, seus ´mitos teológicos´ inclusive.

É tocante a constatação de que a cosmologia Yanomame (ou Yanomamo) faça com que eles se auto percebam como ´o povo´ (tradução da expressão "Yanomame"). Acreditam viver num lugar da Terra que, literalmente, "caiu do céu," de acordo com aquela mesma visão cósmica... Assim como judeus e cristãos, budistas, islâmicos ou outro grupo religioso qualquer, os indígenas do que hoje é o Brasil possuem suas próprias divindades e as cultuam como vários outros povos...

Estudando o mito teológico de diferentes povos, o renomado antropólogo norte-americano Joseph Campbell [The Hero With a Thousand Faces (1973)] sublinha a importância desse conceito no referencial de diversos grupos, funcionando como um elemento básico de conservação cultural. É impossível proteger os nativos do Brasil, em sua expressão cultural única e singular, ao mesmo tempo que permitindo a destruição sistemática de seus valores culturais por "missionários profissionais" "novos cruzados" da era moderna.

Sob a alegação de conduzirem programas de ´caridade amazônica,´ algumas autoridades ainda permitem que grupos estrangeiros, ou mesmo brasileiros, promovam o endoutrinamento religioso de povos nativos da Amazônia, o que corresponde invariavelmente ao ´desmonte´ da identidade cultural de tais etnias. Em troca de alguns poucos medicamentos da cultura ocidental e eventuais cuidados médicos, bens e serviços que os indígenas brasileiros nunca esperaram ter, se permite que esses ´cruzados da era moderna´ terminem por tirar deles tudo que sempre tiveram e esperavam continuar tendo para sempre: sua cultura milenar. Em seguida, os nativos que logram sobreviver a esse verdadeiro etnocídio, vão juntar-se às hordas de brasileiros urbanos excluídos, passando a ser vitimas das mesmas ´enfermidades sociais´ de não-nativos: pobreza, violência e crime, prostituição, alcoolismo, desemprego, etc.. Como nativos, deixam de ter tudo aquilo que sempre tiveram, para serem convertidos numa subclasse de ´civilizados,´ senhores de quase nada do que nunca pretenderam ter.

A contra-partida disso é uma idéia equivocada de altruísmo e de dever cumprido. Alguns pseudo-messias pós-modernos, com uma agenda etnocêntrica da Europa e América do Norte (e até mesmo do próprio Brasil!), continuam a reeditar, no Brasil de hoje, o referencial de miséria estabelecido séculos atrás nas Américas, Ásia e África. É urgente a necessidade de conceber a Amazônia, em suas imensas possibilidades econômicas, como um amálgama de componentes indissociáveis e que inclui, necessariamente, o natural e o cultural: a floresta e o homem.

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