2 de dez de 2007

O Capitão Nascimento é um "Plano-Inclinado"?

por George Felipe de Lima Dantas

O "Globo Online" e "O Globo" dão conta, em matéria divulgada em 30 de novembro de 2007, que "para leitores, urbanização de favelas não reduzirá a criminalidade no Rio". O primeiro dos dois órgãos midiáticos citados na matéria realizou uma enquete respondida por 1771 leitores sobre urbanização de favelas e seus efeitos sobre a criminalidade. Segundo aquela fonte, 60% dos leitores acreditam que as obras de infra-estrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) "não vão colaborar para a redução da criminalidade no Rio de Janeiro". Em outra conclusão da enquete do "Globo Online", 22,5% dos leitores teriam respondido afirmativamente sobre a questão de que "obras vão influir positivamente na questão do tráfico, desde que não se trate apenas da implantação de um plano-inclinado, medida prometida para a maioria das favelas beneficiadas pelo PAC".

Não é preciso grande digressão histórica para compreender que a verdadeira "massa" de favelas cariocas (são mais de 600 delas) "floresceu" pela impossibilidade de um grande contingente populacional ter acesso a moradias diferentes daquela configuração urbana desviante. Ou seja, o fenômeno é social, hoje com um grande alcance histórico decorrente das condições econômicas prevalentes no Estado do Rio de Janeiro por longo período de tempo.

Para reverter a "favelização" de boa parte da população carioca, há que mudar antes a própria economia do estado, compatibilizando os recursos humanos representados pela população excluída com o estabelecimento de uma "nova economia" local. Paradoxalmente, o Rio de Janeiro recentemente viveu um surto de retórica sobre uma chamada "nova polícia", supostamente capaz de reverter um "velho fenômeno" socioeconômico materializado no crime e na violência (?). É paradoxal, pois não parece que uma "polícia nova" (ou qualquer tipo dela...) tenha competências tais que possam reverter um fenômeno como os efeitos da favelização (e violência e crime decorrente dela e de fatores correlatos) que tem sua origem em causas que escapam completamente ao alcance da gestão da segurança pública.

Imaginar que a favelização possa ser mudada com investimentos de infra-estrutura nas próprias favelas, tampouco parece razoável. Para crer nisso seria necessário acreditar também que a água, por si só, pudesse mudar os efeitos socioeconômicos perversos da seca do sertão nordestino sobre aquela população local. Sabe-se dos investimentos econômicos vultuosos em novas regiões irrigadas do Rio São Francisco, mas que lograram apenas mitigar fenômenos econômico-sociais locais. Com as "favelas-bairro" não foi diferente. Apenas água não basta, assim como apenas plano-inclinado tampouco será suficiente. No plano da saúde, em um paralelo, seria como melhorar as instalações de hospitais especializados em enfermidades infecto-contagiosas, AIDS por exemplo, sem investir, contudo e principalmente, em pesquisa, desenvolvimento e distribuição de drogas de protocolos terapêuticos...

A despeito dos arrepios causados em alguns pela inesperada receptividade popular quase que unânime ao "capitão nascimento", ele é como a água chegando aos rincões sedentos do nordeste ou, quem sabe, o plano-inclinado instalado nas favelas cariocas. Mas nascimento, também, não basta... Sua popularidade, entretanto, é que, juízos éticos e legalidade à parte, o dito personagem ficcional "resolve o problema", ainda que lá a sua moda. Da mesma forma são amados (e muito...) os políticos locais que "cronicamente" fazem chegar água às localidades áridas do nordeste, ou mais modernamente, as autoridades do Rio de Janeiro por "fazerem chegar acessos inclinados" (vale o "lá a sua moda" para todo lado...).

O que existe de sombrio em tudo isso é que as soluções apontadas são todas cosméticas, populares e espetaculares, quando sabemos que "atacam" problemas que demandam soluções pouco glamourosas, modestas e até mesmo "invisíveis" em um primeiro momento... Mas é assim que crescem as grandes nações, com ações políticas que investem no futuro e não na popularidade imediatista, investem com medidas sinceras, que não ganham quadros partidários para ninguém, e que só o tempo fará sazonar sua efetividade, eficácia e eficiência. São essas as medidas corajosamente tomadas por "estadistas inesquecíveis" e que assim entraram para a história (ao passo que outros apenas "passaram por ela"...).

Enquanto isso, servidores da segurança pública do Rio de Janeiro e da União perdem a vida, passantes recebem "balas perdidas", enquanto viceja poderosamente enraizado o tráfico de drogas ilícitas naquele estado e alhures (apenas um "caso de polícia"?). Se a água dos caminhões-pipa do nordeste e as "benfeitorias nas comunidades" do Rio de Janeiro são "novidades muito antigas", o capitão nascimento é a mais nova de todas as "antigas novidades" dessa república... Nascimento, ao personificar o "Estado em ação", sem dúvida, é uma "grande novidade". Mas ele também é a idealização de uma classe de raros prepostos do poder público que "mostram a cara" e, queiram ou não queiram alguns, desde muito tempo são conhecidos da população da "Cidade Maravilhosa" e do restante do Brasil. O filme e seu personagem central apenas ratificam um dado, talvez menos trágico, da realidade cruel da segurança pública: seja lá como for, existe um pedaço do Estado que está "guerreando a guerra".

BOPE, CB, DPF, GM, PC, PM e PRF são siglas de arquétipos de heróis interpretados na "realidade social" (não apenas no cinema...) por mais de meio milhão de agentes do Estado brasileiro que sabidamente matam e morrem todos os dias, em prol e junto com o restante de uma Nação massacrada pelo crime e pela desordem. Por isso tudo, nascimento é e sempre será um "sucesso popular". O "plano-inclinado", quem sabe...

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