26 de dez de 2010

Segurança da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul: “Experiência de Sucesso” para Informar o Planejamento da Copa do Mundo de 2014 no Brasil


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Segurança da Copa do Mundo de Futebol de 2010 na África do Sul: “Experiência de Sucesso” para Informar o Planejamento da Copa do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil

por George Felipe de Lima Dantas
em 26 de dezembro de 2010

O ano de 2011 deverá ser pontuado por questões e empreendimentos estruturantes da realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil. É de esperar grandes movimentações em prol da realização desse evento global no Brasil, desde um “aquecimento” geral da construção civil do país, passando por investimentos de ajuste do setor turístico e de seus equipamentos, sem esquecer algo tão essencial e abrangente quanto a segurança, tanto pública quanto privada, que o grande evento irá demandar.

Os setores interessados começaram a dar notícia das demandas em suas área de interesse ainda em 2010. A exemplo, o que aconteceu em Brasília, no mês de abril, em relação ao Sindicato das Empresas de Segurança Privada, Sistemas de Segurança Eletrônica, Cursos de Formação e Transporte de Valores no Distrito Federal (SINDESP/DF). O presidente do SINDESP/DF apontou a recomendação da FIFA de que “A segurança dos torcedores no estádio deve ser item prioritário, tanto na elaboração do projeto quanto na operação dos estádios”.

Mais especificamente, A FIFA recomenda que os estádios tenham, para garantir a segurança dos torcedores, uma sala de controle com visão panorâmica e câmeras de vigilância interna e externa. Além de CFTV (Circuito Fechado de Televisão), os estádios onde serão realizados os jogos de 2014 deverão contar também com serviços de vigilantes (na segurança interna), devidamente autorizados para tanto pela Polícia Federal. É sabido que a FIFA exerce um controle bastante direto da segurança interna dos estádios por ocasião da Copa do Mundo, fazendo com que a segurança, em geral, seja marcada pelo modelo de “iniciativa público privada”.

A segurança da Copa de 2014 certamente irá implicar, no Brasil, em grandes transformações e ajustes na gestão da segurança genericamente considerada. É possível antecipar uma expansão não apenas na estrutura e estilo de atuação das forças públicas de segurança do país, como também na indústria da segurança privada, incluindo tanto seus recursos humanos quanto tecnológicos, sem esquecer modernos modelos de gestão operacional.

Parece fora de dúvida que o Comitê Executivo da FIFA, ao apontar o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, assim o fez pela fato de que o país tenha condições para tanto. Isso pode ser corroborado por realizações efetivas do Brasil, tanto em dias recentes, como no caso do PAN/2007 e da ECO 1992, quanto em um passado já de várias décadas, caso da Copa do Mundo de Futebol de 1950. Afora tais argumentos pontuais, o Brasil é um país de dimensões continentais com farta oferta de bens e serviços turísticos, possuindo uma indústria hoteleira compatível com tal situação.

Outro importante argumento em prol do Brasil sediar eventos globais é a conhecida capacidade criativa e técnica da sua nação, bem como a estabilidade política e econômica que desfruta na atualidade. Dentro desse contexto positivo, talvez seja interessante examinar “experiências de sucesso”, certamente o caso da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2010 na África do Sul.

A África do Sul, semelhantemente ao Brasil, é um país de realizações significativas em seu continente de inserção. Ambos são países diferenciados, ainda que submetidos a fortes tensões socioeconômicas e conhecidas desigualdades sociais. Com isso, é possível imaginar adversidades semelhantes para a realização de algo como uma Copa do Mundo de Futebol, tanto em um país quanto no outro.

Uma realização tida como de capital importância pela África do Sul, em prol da bem sucedida realização da Copa do Mundo de Futebol de 2010, foi a “Lei de Medidas Especiais para a Copa do Mundo de Futebol de 2010” (“The 2010 Soccer World Cup Special Measures Act”). Tal legislação, em sua abrangência e profundidade, norteou os esforços sul-africanos em um empreendimento nacional de tamanha magnitude. Vale notar a antecedência com que a legislação foi editada, ainda no ano 2006, o que sugere a observação de critério não apenas com a substância dos temas por ela tratados, como também com a importância dada à questão da oportunidade temporal, no que refere aos prazos de metas e consecução dos respectivos planejamentos e realizações.

No tocante ao item segurança pública, o governo da África do Sul desenvolveu um plano de abrangência nacional, de caráter intergovernamental, incluindo, entre seus temas e ações correspondentes os seguintes aspectos:

• Cooperação com instituições de segurança pública de países estrangeiros participantes, no tocante ao processo de coleta, busca e análise de informação para a atividade de Inteligência, com o propósito de antever e controlar antagonismos de caráter internacional à realização do evento.
• Mobilização, treinamento e aprestamento operacional das forças de segurança pública e de segurança nacional para emprego efetivo ou eventual no transcurso do certame.
• Provimento de níveis máximos de segurança para as equipes participantes, com cada uma delas sendo protegida especialmente por agentes de segurança pública e privada em condições de emprego imediato enquanto força de pronta resposta.
• Coordenação entre as forças públicas de segurança e o Comitê local da FIFA, no sentido segurança, de modo a assegurar a qualidade dos serviços de segurança privada utilizados, incluindo cuidados especiais em relação à integridade e capacidade técnico-profissional.
• Ênfase na segurança de fronteiras em geral e, especificamente, de pontos de entrada no país, incluindo portos, aeroportos e entradas por fronteiras secas internacionais.
• Ênfase na “segurança de rotas”, com prioridade para itinerários entre aeroportos e cidades.
• Setorização das cidades-sedes dos jogos, com equipes de agentes de segurança pública sendo designadas para setores específicos, incluindo as instalações utilizadas pela FIFA, hotéis, estádios, bares e restaurantes e locais de afluência geral de turistas.
• Utilização das mais modernas técnicas e tecnologias de inteligência e telecomunicações, inclusive de uso militar, em coordenação com o emprego de meios aéreos (helicópteros).
• Utilização e emprego específico de forças públicas adicionais de segurança, especialmente mobilizadas, treinadas e aprestadas para a realização do evento.

O governo sul-africano despendeu recursos financeiros significativos na aquisição de bens e serviços especialmente para a Copa 2010. Foram identificados, especificados, licitados e adquiridos, entre outros itens: (i) equipamentos para controle de distúrbios civis (incluindo “canhões de água”) ; (ii) treinamento em técnicas forenses para atuação em locais de crime; (iii) aeronaves (helicópteros); (iv) veículos de alta performance para patrulhamento rodoviário e; (v) coletes balísticos. Foram também adquiridas centenas de câmeras de CFTV e pelo menos quatro novas centrais móveis (CMov) de comando de operações policiais.

A coordenação terra-ar das operações policiais conjuntas da Copa da África do Sul teve nas CMov seu ponto focal. Para tanto, as centrais estavam equipadas com equipamentos de monitoramento de alta tecnologia, capazes de acompanhar em “tempo real” as “tomadas” de imagens feitas tanto em terra por CFTV quanto no ar por câmeras instaladas em aeronaves. Tais equipamentos seguem em uso, mesmo depois da realização da Copa 2010, constituindo um importante legado do evento para a segurança pública sul-africana em tempos normais.

Outro desdobramento importante aconteceu na área de gestão de recursos humanos policiais e que corresponde aos agentes da segurança publica do país. Mais de 40 mil deles foram especialmente treinados e distribuídos para emprego direto no evento. O número de efetivos foi expandido de 55 mil para 190 mil. Para tanto, efetivos da reserva policial foram aumentados de 45 mil para 100 mil. Em termos de qualidade e quantidade, a força pública do país ficou significativamente melhorada em função do evento.

Em outro desdobramento significativo e único, a África do Sul estabeleceu mecanismos de cooperação com forças policiais dos países participantes da competição. Policiais representantes de tais países foram enviados para a África do Sul, tendo como missão apoiar as forças policiais locais em relação às respectivas línguas e costumes de seus nacionais em território sul-africano. Foram estabelecidos mais de dois mil postos de atendimento policial nas cercanias dos estádios, bem como disponibilizados serviços de segurança pública 24 horas por dia, incluindo equipes de investigação e tribunais especiais para resolução de questões especificamente relacionadas com o evento. Uma linha telefônica multilíngüe foi estabelecida para atendimento de emergências, apoiando os visitantes 24 horas por dia no tocante a necessidades de serviços médicos e/ou policiais.

O aparato humano, tecnológico e de cooperação internacional investido na realização do evento pelo governo sul-africano permitiu que uma “questão chave” pudesse ser formulada e respondida com a necessária antecedência: “Quem vai estar onde e quando” em termos de comparecimento aos jogos do certame. Isso resultou em atividades bem sucedidas de controle, incluindo prisões tempestivas de potenciais autores de “delitos de oportunidade”.

A atividade de contra-terrorismo, tema da maior importância no planejamento e realização de grandes eventos internacionais, pelos resultados obtidos, foi plenamente bem sucedida.

Tudo isso sugere alguma atenção, da parte dos brasileiros, com o modelo de “experiência de sucesso” sul-africana, sobre algo similar ao que ainda está por ser realizado no Brasil.

Fontes/Referências:

- How SA will secure the soccer World Cup - Nathi Mthethwa. 24 January 2010.
- Segurança em estádios não segue recomendação da FIFA – SINDESP. 22 de abril de 2010.


Você leitor que está envolvido na questão da cooperação internacional em prol da Copa do Mundo de 2014, compartilhe conosco suas opiniões sobre a experiência sul-africana (por favor, faça isso em "comentários"). Em que medida ela pode ser replicada na realidade brasileira? - Quais são, das "lições aprendidas" em 2010, as que podem ou não ser transpostas para o Brasil da Copa do Mundo de 2014?

Um comentário:

Blogandosegurança disse...

Você leitor que está envolvido na questão da cooperação internacional em prol da Copa do Mundo de 2014, compartilhe conosco suas opiniões sobre a experiência sul-africana. Em que medida ela pode ser replicada na realidade brasileira? - Quais são, das "lições aprendidas" em 2010, as que podem ou não ser transpostas para o Brasil da Copa do Mundo de 2014?