18 de fev de 2010

Preocupações com o PAN/2007 que serão retomadas em 2014 e 2016


Artigo publicado no jornal norte-americano "Washington Times" na edição de 19 de setembro de 2005.

Brasil: o próximo alvo?
por George Felipe de Lima Dantas e Yonah Alexander

Quando a humanidade contabiliza mais um aniversário do 11 de setembro de 2001, data representativa da mais letal das operações terroristas da história, é possível recordar, também, de vários outros atentados perpetrados desde então, em nome de diferentes ideologias, agendas políticas ou "altos princípios" religiosos. Tal recordação inclui a vitimização de civis inocentes em Bali, Jacarta, Casablanca, Madri, Londres e Sharm-el-Sheikh.Após o 11 de setembro, uma questão permanece e não quer calar: devemos esperar um atentado similar, em escopo e sofisticação, ocorrendo em algum outro lugar? – A resposta, curta e simples, é que sim. Isso certamente irá ocorrer e é apenas uma questão de tempo. A tarefa que se afigura, então, é buscar projetar onde poderá ocorrer, bem como o modus operandi correspondente.

Um rasgo desse futuro sombrio pode ser antevisto a partir das declarações de um porta-voz da organização al Qaeda, quando ele vaticina: "amanhã, Los Angeles e Melbourne". E que dizer do "depois de amanhã"? Consideremos, por exemplo, o certame internacional representado pelos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Será ele um alvo potencial "desse amanhã sombrio"?

O Brasil é a maior e mais populosa democracia da América Latina e tem sido poupado, ao menos até agora, da ocorrência de atentados terroristas. Ainda assim, brasileiros já foram mortos em ataques terroristas, tanto no caso das Torres Gêmeas de Nova Iorque quanto no do atentado contra a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Bagdá.Os brasileiros mortos, em ambos os casos, simplesmente estavam no lugar errado na hora errada.

A última dessas tragédias ocorreu em Londres, quando um cidadão brasileiro foi supostamente confundido com terroristas, sendo morto pela polícia britânica logo em seguida ao atentado contra o sistema de transportes públicos da capital inglesa.

Uma atitude brasileira bastante prevalente é negar sistematicamente a simples possibilidade de colocar a questão do terrorismo na agenda da política de segurança nacional ou de segurança pública, quiçá pelo medo de que isso possa "atrair um acontecimento do gênero". Tal premissa não tem fundamento, já que, após o 11 de setembro, nenhum país ou local pode ser considerado imune ao terrorismo.

O Brasil, nesse momento histórico, se encontra em franco processo de enfrentamento da corrupção, em particular, por um lado, enquanto pelo outro trata de controlar a criminalidade de massa. Ainda que ele seja uma das maiores economias globais, sustenta altos índices de criminalidade, diferentemente de paises menores e mais desenvolvidos em termos políticos e sociais. Sua população, de certa forma, ficou acostumada a conviver com altos índices de criminalidade e violência.

Na zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, a beleza das praias locais pode esconder uma realidade bastante distinta... Algumas ruas dos bairros socioeconomicamente diferenciados da zona sul são compartilhadas por gente de classe média e moradores de comunidades carentes dos morros ao redor, constituindo hoje verdadeiras "zonas conflagradas" sob a ameaça permanente de narcotraficantes.Em tal contexto, na troca de tiros entre membros de gangues rivais e entre elas e a polícia, várias pessoas já foram mortas ao acaso, enquanto estavam dentro das suas próprias residências, em conseqüência de disparos do que se convencionou chamar "balas perdidas".

Enquanto isso, os presidiários cariocas continuam delinqüindo, até mesmo de dentro dos próprios estabelecimentos penais locais. Utilizam, para tanto, ao arrepio da lei, telefones celulares levados irregularmente para o interior das unidades prisionais. É assim que eles e membros de gangues, de fora das prisões, costumeiramente logram chantagear comerciantes e dirigentes de estabelecimentos escolares da cidade a fechar suas portas, sempre que delinqüentes locais são confrontados de alguma forma pelas autoridades policiais.

É digna de nota a expansão da relação entre o crime organizado e grupos terroristas, no tocante a atividades ilegais como narcotráfico, contrabando e lavagem de dinheiro. O estudo "Controle de Armas de Fogo e Produtos Correlatos", apresentado em 2005 a uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Legislativo Federal, oferece um rasgo de visão acerca da crescente ameaça terrorista existente no país.Segundo tal documento, enquanto existiriam cerca de dois milhões de armas de fogo regulares no Brasil, outros vinte milhões delas estariam na ilegalidade. Talvez esta seja uma das razões pelas quais os criminosos cariocas ousem enfrentar abertamente os agentes da lei e da ordem...

A possibilidade de uma expansão, para o Brasil, do potencial de terrorismo existente na região da chamada Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), intensifica ainda mais a preocupação com uma eventual ligação entre o terror e o crime organizado naquele local.A região é conhecida por vários delitos, incluindo narcotráfico, contrabando, fraude, lavagem de dinheiro e produção, transporte e comercialização de mercadorias pirateadas.

Relatórios de Inteligência de diferentes fontes vinculam a Tríplice Fronteira com grupos como o Hamas, Hizballah e al Qaeda, os quais, sabidamente, já estariam operando em vários dos diversos países da América Latina e outras regiões globais.O potencial para o estabelecimento de um vínculo colaborativo entre criminosos brasileiros e terroristas estrangeiros é hoje uma probabilidade tangível, muito mais do que uma simples possibilidade.Consequentemente, os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, podem representar uma oportunidade única para um atentado terrorista de autoria conjunta entre aquelas duas espécies de grupos de criminosos.

Para minimizar tal probabilidade, o Brasil precisa planejar e implementar uma estratégia defensiva integrada minuciosa, com o concurso das diversas instituições de segurança pública do país.Em primeiro lugar, é mister aprender com a história dos jogos olímpicos realizados nos últimos 30 anos, o de Munique (1972) inclusive. As estratégias de segurança devem incluir, necessariamente, um currículo padrão para as academias de polícia, de tal sorte que possa ser criado um programa também padrão de "treinamento de treinadores". Os conteúdos devem abranger, dentre outros temas, Inteligência de Segurança Pública e Análise Criminal e Minagem de Dados, sem olvidar exercícios de simulação de resposta a atentados. Isso tudo implica, necessariamente, na disponibilização de recursos financeiros, pessoal, tecnologia e equipamentos, em um "pool" integrado internacional, regional, nacional, estadual e local.Em suma, os desafios globais comuns da era que se segue ao 11 de setembro precisam ser enfrentados com vigilância contínua, bem como solidariedade e cooperação internacionais.

Necessário lembrar o que Syrus Publius, mais de dois mil anos atrás, já apontava: "está mais resguardado do perigo aquele que permanece vigilante, mesmo quando já se sente seguro". Com tudo isso, como não poderia deixar de ser em uma democracia, o Brasil precisa equilibrar suas justas preocupações com relação a questões de segurança com os direitos e garantias individuais.

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