17 de dez de 2007

Copycat: uma semana de cão ou de gato?

Por George Felipe de Lima Dantas
Dezembro de 2007

Passados apenas quatro dias do massacre de mais de trinta membros da Universidade "Virginia Tech" (16 de abril de 2007) no Estado da Virgínia, Estados Unidos da América, outro atirador-homicída invadiu as instalações do "Johnson Space Center" (Centro Espacial Johnson da NASA -- 20 de abril de 2007) no Estado do Texas, fazendo um refém, matando um funcionário da instituição e cometendo suicídio ao final.

No dia 20 de abril, diferentemente do ocorrido em Virgínia, a comunidade foi amplamente informada sobre os desdobramentos da situação, o que talvez explique o fato da nova tragédia ter feito duas vítimas ao invés de dezenas delas como quatro dias antes.

– "Copycat" em 20 de abril do ocorrido em 16 de abril? –Talvez sim... Copycat é uma expressão em inglês que resulta da justaposição da palavra "copy", que significa "cópia", seguida da palavra "cat", que quer dizer "gato". Ela tem sua origem no fato de que os filhotes de gatos tendam a imitar, todos juntos, o comportamento da mãe. Assim, a expressão se refere, indiretamente, às manifestações da tendência animal de reproduzir comportamentos modelados de outros indivíduos, tendência essa jocosamente representada no bordão "o que o macaco vê o macaco faz".

O "efeito copycat" tem sido sistematicamente apontado na literatura criminológica, sempre que a ocorrência de um determinado delito "dispara" uma onda de ocorrências ou fatos similares. O fenômeno parece ser típico, por exemplo, quando acontecem suicídios ou homicídios de grande repercussão social. Assim, a publicidade sensacionalista sobre um suicídio ou homicídio pode fazer com que, logo em seguida, aconteçam várias outras ocorrências da mesma natureza.

A mídia de postura socialmente responsável muitas vezes evita fazer menção a certos delitos, caso, por exemplo, do vandalismo, já que uma simples referência a uma dessas ocorrências pode fazer desencadear várias outras, segundo o "efeito copycat". Com o suicídio acontece o mesmo. O suicídio do músico Kurt Cobain, líder da banda norte-americana Nirvana, em 1994, parece estar relação com uma série de suicídios subseqüentes.

Uma das bases teóricas explicativas do chamado "efeito copycat" é a "Teoria da Aprendizagem Social" ou "Teoria da Modelagem".

A "Teoria da Aprendizagem Social" (TAS) ou "Teoria da Modelagem" (TM) sustenta que os indivíduos podem aprender determinados comportamentos socialmente, de maneira informal, incluindo como portar-se em situações específicas, simplesmente pela observação uns dos outros. Tal aprendizagem estaria condicionada pela observação de que os comportamentos verificados nos "modelos" produziriam os resultados por eles almejados. Assim, a imitação seria procedida na expectativa de obter os mesmos resultados observados na ação ou comportamento modelado.

A mídia, tão abundante na sociedade moderna, produziria muitas das "situações modelo" para aprendizagem pela imitação ou modelagem. Tendo em conta o valor supostamente positivo atribuído pela mídia às situações por ela retratadas como "ideais", quer seja no plano real ou ficcional, isso faria dela uma poderosa fonte de modelagem de "comportamentos sociais almejados". Assim, a mídia seria uma das fontes mais determinantes de modelos de como a sociedade deveria funcionar e, correspondentemente, de como os indivíduos devem comportar-se em situações sociais específicas.

Um exemplo bem tangível do efeito comportamental da mídia seriam as "fórmulas dramatúrgicas" das telenovelas, sempre bastante semelhantes em essência. Segundo elas, situações afetivas se complicariam em um primeiro momento por força de um incidente marcante qualquer, passando em seguida por um estado de conflito e confusão, para derradeiramente chegarem a uma resolução ou "final feliz"... A audiência se apegaria a esse formato, produzindo "bons índices de audiência", o que seria reforçado pelo "final feliz" previamente esperado pelos próprios telespectadores, produzindo um sentimento de "auto-corroboração"....

Obviamente, ainda que "modelando" comportamentos bem-sucedidos dos personagens ficcionais das telenovelas, nem por isso as pessoas do "mundo real" passam a ter os mesmos desfechos glamourosos e felizes em suas vidas...

A "Teoria da Aprendizagem Social" (TAS) ou "Teoria da Modelagem" (TM) foi desenvolvida originalmente pelo psicólogo Albert Bandura (Mundare, Canadá, 1925). No plano da criminologia, a TAS serviria para explicar, de maneira esquemática geral, como a agressão é aprendida "por modelagem". Contrariando esquemas teóricos positivistas que apontam que as tendências violentas seriam "herdadas biologicamente", a TAS ou TM sugere que elas seriam "aprendidas ou modeladas socialmente". Em um primeiro estágio do desenvolvimento psicossocial as crianças aprenderiam "respostas agressivas" ao observar outras pessoas (na família primordialmente), através da mídia (nos "desenhos", por exemplo) ou no ambiente social externo à família (com os "amiguinhos" basicamente). Isso eventualmente levaria o indivíduo a um "reforço positivo" em relação a certos comportamentos observados, o que implicaria que eles devessem ser emulados ou copiados sistematicamente, vis-à-vis promoverem ganho material, ganho da estima de terceiros ou mesmos ganhos na própria auto-estima.

Se as teorias de Bandura explicam, na modelagem da aprendizagem social, as causas da agressão, decorrentemente, autores mais recentes trabalham com a previsibilidade de episódios emulados de episódios anteriores. É esse o caso de Loren Coleman em sua obra relativamente recente, "O Efeito Copycat" (The Copycat Effect) de 2004.

Segundo Coleman, situações passadas podem servir para previsão da ocorrência de eventos futuros nelas modeladas. Este seria o caso, por exemplo, de ocorrências de violência letal com incidência nas escolas. Entre tais inferências, vale destacar a de que novos episódios tendem a ocorrer no início do primeiro ou no final do segundo semestre do ano letivo. Também é digna de nota a observação de que ocorrências de violência letal nas escolas guardem um padrão temporal em sua emulação, fazendo com que os fatos repitam algum tempo depois do episódio noticiado pela mídia, podendo ocorrer a curto, médio ou longo prazo, dependendo do "relógio interno" do seu autor. Não menos importante, podem ser emuladas também as características do autor, das vítimas e até mesmo o modus operandi utilizado originalmente.

Dentre todas as conclusões de Coleman, a mais importante talvez seja a de que ocorrências intensamente veiculadas pela mídia terão maior possibilidade de ser objeto do fenômeno de modelagem, se constituído, portanto, em significativas ameaças a partir de sua ocorrência e conseqüente divulgação pública.

O fenômeno vulgarmente denominado de "copycat", portanto, talvez faça parte da dinâmica social muito mais intensamente do que faz supor o senso comum. E ele é tão prevalente que já chega a ser celebrado até mesmo na música popular, caso da canção "Copycat", da banda irlandesa "Cranberries", cuja tradução para o português segue abaixo.

"Copycat"/Imitação

Eles sofreram um acidente mas nunca notaram de forma alguma
Uma falta de originalidade não se evidenciaria nesse dia
Tudo por causa do rádio, todos tocam iguais
Todos usam as mesmas roupas agora, todos jogam o jogo
Imitação, imitação, imitação Imitação, imitação, imitação, imite você mesmo
Imitação, imitação, imitação Imitação, imitação, imitação, imite todo mundo
Tive uma grande idéia, mudarei as coisas eu mesmo
Eu tenho minha opinião muita clara, não queria ser outro clone
Tudo por causa do rádio, o rádio é tristeTriste, triste, triste
Eles sofreram um acidente mas nunca notaram de forma alguma
Uma falta de originalidade não se evidenciaria nesse dia
Tudo por causa do rádio, todos tocam iguais
Todos usam as mesmas roupas agora, todos jogam o jogo
Imitação, imitação, imitação Imitação, imitação, imitação, imite você mesmo
Imitação, imitação, imitação Imitação, imitação, imitação, imite todo mundo
Imite qualquer um (repetir oito vezes)

Um comentário:

LUIZ CARLOS COSTA BEZERRA disse...

Muito Bom o texto... auxiliou-me no trabalho de Teoria da Comunicação II..Muito Grato...