22 de nov de 2007

O Camaleão

Fonte: Chekhov, A. Selected Works in Two Volumes. Moscow, URSS: Progress Publishers, 1979, p.31-34.

Introdução

Anton Pavlovich Chekhov (1860-1904) é considerado um dos grandes mestres da literatura e da dramaturgia mundial. Contador de histórias, o autor ficou célebre por sua produção de “contos curtos”, com eles sendo encenados em peças teatrais de um único ato, inicialmente no Teatro de Arte de Moscou.

Chekhov também produziu tragédias, de tamanho usual, consideradas grandes obras da dramaturgia. Ele escreveu extensamente sobre a vida cotidiana da Rússia, da maneira como ele a entendia, com humor, profundidade e sinceridade. O célebre autor mostrava o povo russo como acreditava que ele realmente fosse, e não como gostariam que fosse mostrado. Poucos escritores, de acordo com diferentes críticos, possuem uma genialidade, como a de Chekohv, na descrição humana e divertida da Rússia e do seu povo. Ele é tido, semelhantemente a alguns poucos outros autores, caso do argentino Cortázar, como uma importante influência na modalidade literária do “conto curto”.

Em minhas incursões pela obra de Chekhov, encontrei um conto particularmente interessante sobre as rápidas transformações da “opinião técnica” de um policial carreirista e inescrupuloso (Ochumelov), tipo de “caráter político” talvez tão atual nos dias de hoje, quanto na época que o autor o descreveu, mais de um século atrás. Seria interessante que esta tradução para o português fosse divulgada nos ambientes de formação policial, já que parece ser uma verdadeira “lição ao revés” do que deva ser um policial.

“O Camaleão”

(Traduzido e adaptado por George Felipe de Lima Dantas -- 1999)

O inspetor de polícia Ochumelov (*), vestido em seu capote novo, andava pelo mercado carregando um pacote nas mãos.

Na mesma direção do inspetor, caminhava pelo mercado um policial ruivo, carregando uma bacia cheia até a borda com frutas silvestres confiscadas.

O mercado estava todo em silêncio… Parecia não haver ali viva alma… Com suas portas abertas, pequenas lojinhas e tavernas quedavam pateticamente vazias, tal qual bocas abertas e famintas. Lá não estavam sequer os usuais pedintes, rotineiramente postados à entrada das lojas.

Subitamente o som de uma voz chegou aos ouvidos de Ochumelov...

- Quer dizer que você ia morder, não ia, seu vira-latas ordinário! - Não deixe ele ir embora homem! - Morder não é permitido atualmente. – Segure-o!

Um ganido se fez ouvir.

Ochumelov lançou o olhar na direção do som e isso foi o que ele viu: um cão correndo, pisando apenas em três patas, perseguido por um homem vestido com uma camisa estampada engomada e um colete desabotoado. O homem e o cão estavam saindo da marcenaria de Pichugin. O homem corria pendido para frente, até que conseguiu agarrar o cão por uma das patas traseiras.

Um outro ganido foi ouvido, seguido de mais um grito.

- Não deixem ele fugir!

Caras sonolentas apareceram de dentro das lojas e, subitamente, uma pequena multidão, como se saída de dentro da terra, estava aglomerada na porta da marcenaria.

- Parece uma situação de comoção pública, excelência! – Assim falou o policial ruivo ao inspetor Ochumelov.

Ochumelov virou-se no sentido contrário ao que estava caminhando, dirigindo-se ao local da aglomeração. Exatamente na porta da loja ele viu o indivíduo vestido com o colete desabotoado, mão direita levantada, sangrando, enquanto mostrava o dedo ferido aos circunstantes.

- Você vai levar seu demônio!

Tais palavras pareciam escritas em seu semblante, no limite do descontrole, enquanto mostrava o dedo como se fosse uma bandeira de vitória.

O inspetor Ochumelov verificou que o indivíduo era Khryukin (**), o ferreiro.

No meio da pequena multidão, apoiado nas patas dianteiras e sentado nas posteriores, o acusado, corpo inteiro tremendo, filhote branco da raça “borzoi”, com um focinho pontudo e uma mancha amarela nas costas. Os olhos lacrimejantes mostravam uma expressão de sofrimento e horror.

-O que isso tudo quer dizer?

O inspetor Ochumelov fez a indagação, ao mesmo tempo que empurrava com os ombros as pessoas da multidão, abrindo caminho até o centro da aglomeração.

- O que você está fazendo? - Qual a razão desse seu dedo para cima? - - Quem gritou?

- Eu estava caminhando, excelência, quieto como um cordeiro.

Assim começou a responder Khryukin, enquanto tossia com a mão na boca.

- Tinha que falar sobre uma madeira, aqui com Mitri Mitrich e, subitamente, sem nenhuma razão aparente, aquela coisa mordeu meu dedo.

- Por favor, eu sou um trabalhador… - Meu ofício é muito elaborado. - Faça com que eles paguem uma compensação. - Talvez eu não consiga sequer mexer esse dedo por mais de uma semana. - Não está escrito em lei nenhuma, excelência, que nós tenhamos que aturar animais ferozes. - Se todos os animais do mundo começarem a morder assim, a vida não vai mais valer a pena ser vivida…”

- Hum… bem, bem, respondeu Ochumelov, com um ar de autoridade, pigarreando e franzindo as sobrancelhas. - Bem, bem… quem é o dono do cão? - Eu não vou deixar isso ficar assim. - Vou ensinar a essa gente o que acontece se deixarem seus cães soltos! - Já está na hora de fazer alguma coisa contra esses cavalheiros que não estão dispostos a obedecer aos regulamentos! - Ele vai levar uma multa tamanha, esse indisciplinado... - E vou ensiná-lo acerca do que acontece quando cães e gado, de modo geral, são deixados à solta! - Vou ensiná-lo como é!

- Eldirin, prosseguiu Ochumelov, virando-se para o policial, descubra quem é o dono do cão e redija uma ocorrência. - E o cão deve ser exterminado sem demora. Ele provavelmente deve estar louco… - Afinal, de quem é esse animal, eu pergunto?”

- Eu acho que ele pertence ao General Zhigalov, disse uma voz de dentro da multidão.

- General Zhigalov! Hum. - Eldirin, me ajude a tirar esse meu casaco… Ah, como está quente! Vai chover com certeza...

O inspetor voltou-se para Khryukin.

- Uma coisa que eu não entendi ainda foi como ele mordeu você? - Como ele conseguiu chegar até o seu dedo? - Um cão tão pequeno e você um sujeito tão grande e robusto! - Você deve ter é arranhado esse seu dedo com um prego e imaginado um jeito de fazer dinheiro com isso. - Eu conheço bem vocês, um bando de demônios!

- Ele queimou a ponta do focinho do cachorro com um cigarro aceso excelência, só para fazer graça, e aí o animal mordeu o dedo dele, ninguém aqui é bobo!

Esse Khryukin está sempre criando problemas, excelência!

- Nenhuma dessas suas mentiras ocorreu, seu cego! - Você não viu nada disso acontecendo, qual a razão de você estar mentindo? - Sua excelência é um cavalheiro inteligente e sabe quem está mentindo e quem está dizendo a verdade. - Que o juiz de paz me julgue se eu estiver mentindo! - É isso que diz a lei… Todos os homens agora são iguais. Eu mesmo tenho um irmão na polícia, se você quiser saber…

- Não discuta! - Não, esse não é o cão do general, observou o policial com voz grave. - O general não tem um cão assim, todos os cães dele são “pointers”.

- Você tem certeza disso?

- Absolutamente honorável Inspetor.

- E você está certo! - Os cães do general são animais caros, de raça pura, e esse aqui, olhe só para ele... Feio, magro e vira-latas! - Por que razão alguém ficaria com um cão desses? - Você está louco? - Se um cão como esse estivesse em Moscou ou São Petersburgo, sabe o que aconteceria com ele? - Ninguém se preocuparia com a lei e se desfaria dele em um minuto. - Você é uma vítima Khryukin, e não deve deixar as coisas ficarem por isso mesmo. - Ele precisa levar uma lição! A hora é essa…

- Talvez, com tudo isso, ele seja mesmo do General, disse o policial pensando alto.

- Não se pode ter certeza apenas olhando o cão, vi um desse tipo no jardim dele um dia desses.

- É claro que pertence ao general, disse uma voz vinda da multidão.

- Hum! - Eldirin, me ajude com meu casaco… Estou sentindo uma lufada de vento. Estou arrepiado. - Leve esse cão até o pessoal do general e pergunte a eles lá. Diga que eu encontrei o animal e mandei que você o levasse. E diga também a eles que não deixem que esse animal volte para a rua. Talvez seja um cão caro e possa se estragar, caso todos os brutos acharem de queimá-lo com um cigarro no focinho. Um cão é uma criatura delicada. - E você, abaixe essa mão seu idiota! - Pare de mostrar a todo mundo esse seu dedo. - Foi por sua própria culpa que isso aconteceu…

- Ali está vindo o cozinheiro do general, vamos perguntar a ele… - Ei, você aí, Prokhor! - Venha até aqui, meu velho! De uma olhada nesse cão e veja se ele é de vocês...

- Qual é a próxima lorota?! - Nós nunca tivemos um cão como esse em toda nossa vida!

- Não precisa investigar mais nada, disse o inspetor Ochumelov. - Ele é um cão vadio. - Para que ficar aqui falando sobre isso. - Você foi avisado de que é um cão vadio, então um cão vadio ele é. - Destrua esse animal e terminemos com o assunto.

- Ele não é nosso, prosseguiu Prokhor, mas ele pertence ao irmão do general que chegou aqui faz pouco tempo. - Nosso General não tem nenhum interesse em borzois. - Tal já não acontece com o irmão dele, que gosta muito dessa raça…

- O que? - o irmão do general veio para cá? - Vladimir Ivanich? Assim exclamou Ochumelov, com um sorriso de êxtase espalhado pelo rosto. - Extraordinário! - E eu que não sabia! - Chegou para ficar?!

-É, chegou para ficar.

- Extraordinário! - Eu queria mesmo ver o irmão do general! - E olhe que eu nem sabia disso. - Então o cachorro é dele? - Fico feliz! - Pegue-o… - É um ótimo cachorrinho!

- Avance no dedo dele cachorrinho... Ha-ha-ha! - Venha agora, não trema! Gr-gr… - O danadinho está com raiva… - Que filhotinho!

Prokhor chamou o cão e foi embora da marcenaria com ele. A pequena multidão começou a rir de Khryukin.

- Eu ainda te pego, ameaçou Ochumelov a Khryukin e, ajeitando o casaco, continuou seu caminho pelo mercado...


(*) da palavra russa ochumely, enlouquecido
(**) da expressão russa khryu-khryu, grunhido de porco

2 comentários:

Anônimo disse...

Agora ficara mais facil aprender sobre SegPub.
Abraco e saudacoes haitianas
Sergio

Patrícia disse...

Adorei!