21 de nov de 2007

Análise Criminal

A atividade de análise criminal é um instrumento por excelência da segurança pública. Com as técnicas por ela utilizadas é possível entender um fenômeno delitivo, sempre que ele não seja de ocorrência aleatória. E a maioria absoluta deles não o é. Uma boa maneira de compreender isso é imaginar que em dias de mau tempo (chuva ou neve) a quantidade de pessoas nas ruas, tanto potenciais vitimas, quanto criminosos, diminuirá, diminuindo também, pela mesma razão, o número de crimes perpetrados. Existe, portanto, uma lógica nos fenômenos da segurança pública.

As técnicas utilizadas pela análise criminal deram um verdadeiro salto com a universalização do uso de computadores, a partir da década de 1980, quando os primeiros microcomputadores passaram a estar disponíveis. Isso fez com que os bancos de dados de registros policiais passassem a poder ser arquivados de maneira automatizada, podendo também, da mesma forma, serem compulsados e analisados. A técnica tomou grande impulso, antes da área pública, em outras áreas da atividade humana, com a utilização da tecnologia digital, caso da chamada “business intelligence” (BI). Um exemplo típico da utilização de BI é poder direcionar material de marketing especificamente para clientes que adquiriram algo relacionado com o que está sendo agora veiculado enquanto novidade. Para tanto, é possível enviar mensagens publicitárias específicas, sob a forma de “mala-direta”, para clientes cujos dados estejam arquivados em bases de dados empresariais. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, é comum o caixa indagar do cliente, ao pagar, seu código de endereçamento postal. Na verdade, ele está colhendo um dado de mapeamento daqueles que adquirem determinadas mercadorias.

A atividade de análise criminal consiste, por exemplo, em buscar identificar o autor de um determinado delito, entre vários indivíduos cujos dados constem nas bases de dados da polícia considerada. É evidente que o autor do delito em questão pode inclusive não ter ainda seus dados arquivados na base. Mas parte-se da premissa de que alguns poucos indivíduos, em meio à população em geral, já cometeram grande quantidade de delitos semelhantes. É esse o caso, por exemplo, daqueles que já praticaram delitos de natureza sexual, reconhecidamente de alta taxa de recidivismo. Isso implica em investigar a autoria de certos delitos, primeiro, buscando aqueles que já delinqüiram semelhantemente. Uma conhecida técnica para tanto é comparar a maneira como o delito foi perpetrado com a maneira como outros delitos foram cometidos anteriormente. É a chamada “busca de um padrão”.

Os padrões criminais são infinitos, ainda que mais ou menos usuais, e não tantos, segundo a época histórica do cometimento dos crimes. Eles são decorrentes tanto da patologia psicológica quanto social do delinqüente, bem como das próprias condições ambientais de uma determinada época histórica. No plano psicólogo é conhecido o fenômeno da “assinatura” deixada pelo criminoso no local do crime, ou mesmo no corpo da vítima, enquanto expressão simbólica de distúrbios do psiquismo do autor. Já no plano anti-social, é comum identificar delitos tipicamente perpetrados contra determinados alvos, caso, por exemplo, de crimes cometidos contra representantes do Estado. É o caso também, por exemplo, dos crimes de corrupção em que agentes públicos se utilizam da sua autoridade para tentar apropriar para o patrimônio privado bens ou recursos coletivos.

Os padrões da criminalidade do passado podem, portanto, facilitar a investigação criminal do presente, ou até mesmo apontar medidas preventivas para que tais crimes não se repitam no futuro. Tudo isso está baseado no estabelecimento e manutenção permanente de bases de dados e da sua utilização com o concurso de instrumentos automatizados de procura nestas mesmas bases, sem esquecer a necessária capacitação dos recursos humanos para que os fenômenos tratados possam ser estudados de tal maneira. Entre outros instrumentos tecnológicos contemporâneos de análise criminal, vale destacar os software de análise de vínculos e de mapeamento criminal. A primeira classe deles auxilia o analista criminal a identificar e mapear redes de indivíduos e organizações que operam para a consecução de crimes. Já os software de mapeamento, intensamente utilizados em várias outras atividades que não a análise criminal, permitem que fenômenos criminais possa ser localizados de forma visual ao longo do tempo e do espaço geográfico.

Tudo isso constitui alguma coisa da moderna atividade de análise criminal, já hoje uma disciplina acadêmica, poderoso recurso da modernidade para o controle do fenômeno do crime e da violência do século XXI.

4 comentários:

Alécio disse...

Belo texto.

Patrícia disse...

Sem dúvida, ainda temos um longo caminho pela frente no que tange a disseminação dos conhecimentos relativos a segurança pública. Felizmente a Análise Criminal já é uma disciplina acadêmica, mas precisa ser definitivamente incorporada nas malhas curriculares das academias de polícia, bem como ser trata especificamente para podermos qualificar devidamente o policial, tornando-o efetivamente um analista.
Esse é o caminho. Nada melhor como esse ambiente para difundir esse tema.

Rômulo disse...

Boa tarde

Imagino que os organismos de Segurança Pública como um todo e em especial aqueles cujos trabalhos são voltados para a prevenção do ilícito penal, teriam na Análise Criminal um instrumental extremamente fértil para melhor utilizar os seus meios.

Já não é incomum programas avançados de computadores em termos de relacionamento de dados, entre outros, os quais, por meio de uma base bem alimentada, confeririam o campo adequado para a implementação da AC.

Um simples exemplo, que há muito poderia e deveria ser melhor pensado, são as infindáveis ocorrências policiais originadas nas ações das polícias militares que se perdem nas delegacias e sequer são utilizadas no bojo do processo penal.

Em outras palavras, aquele velho Boletim de Ocorrência, manuscrito e abandonado nas Unidades Policiais Militares, se digitalizado e melhor trabalhado, além de fonte primária de informação, serviria de base rica para a aludida AC.

Espero ter colaborado e parabéns pelo Blog.

PALHARES - CAP PMDF

Anônimo disse...

"Análise Criminal".

Esta disciplina está tão badalada, que gostaria de chamar de "Ciência Criminal". Ela é tão importante no mundo acadêmico, que todos os seguimentos da Sociedade Organizada, gostaria de conhecer melhor esta disciplina.
No meu ponto de vista, lendo os comentários no Blog Segurança Pública, melhor seria as bases integradas entre as Polícias para coletar todos os dados necessários, para análise criminal, já que esta disciplina se vale de dados estatísticos, situação econômica e geográfica, onde a maior o menor indice de violência e criminalidade. Na era da tecnologia da informação, acredito que algumas bases militares, onde são coletados os dados, nem todos tem acesso a esse instrumento tão precioso, importantíssimo para análise criminal, que trabalha também com a informação.